Parte 01
Ele entrou como quem já conhece o lugar. Não olhou o salão, não procurou ninguém. Sentou-se de costas para a porta, o que só faz quem não tem medo do que pode entrar.
Eu deveria ter olhado para o meu copo. Deveria ter continuado a conversa que já estava morrendo na minha mesa. Mas há noites em que a cidade decide por você.
Quando ele finalmente virou o rosto, não houve surpresa. Havia reconhecimento — daquele tipo que não depende de já ter se visto antes.
Trocamos três frases. Nenhuma delas importava. O que importava estava no intervalo entre elas, naquele silêncio educado que as pessoas usam quando estão decidindo até onde vão.
Saí antes do último drink. Não por prudência. Por método. Algumas histórias precisam de uma segunda noite para existir.



